Toda a sua alegria voava agora nas alturas, o adulto ficara tímido e envergonhado, quando vira a sua criança interior libertar-se, na forma daquele papagaio artesanal, transportava nele uma energia que quisera partilhar, que prometera um dia sempre vivenciar, levava com ele o seu grito de liberdade, que também um dia fora aprisionado pela vida dos homens, sentira vergonha de não ter tido a coragem para ser ele próprio, sentia agora o peso por ter tomado um caminho que o afastara de si, de DEUS, tomara o rumo que lhe fora indicado, assumira a posse de bens como permanentes, assumira que a morte era para os outros, tomara como garantidas situações económicas que criara, agora deitado de costas na relva, olhava o papagaio que no céu rodopiava ou mesmo planava a seu belo prazer, porém por ele comandado, sentia-se incomodado sem perceber porquê, fixou-lhe os olhos e sonhou de novo com a liberdade que o vento insistia em lhe mostrar, perdeu-se em memoráveis rodopios na sua vida que esvoaçava presa por um fio, percebeu então, que o papagaio apenas queria liberdade, para expressar a sua alegria de forma própria á revelia da sua, para partir sem saber para onde, mas na alegria da busca, sem se preocupar com a direcção, confiando apenas na vida, reviu-se então naquele frágil papagaio de papel, era ele no alto cheirando, respirando a liberdade que tanta falta sentia, o fio que o ligava ao mesmo, era a sua vida que por outros era decidida, já nem se lembrava de quando decidira amar um sonho e por ele lutar, ele, representava a sociedade que era feita da anulação da vontade, em prole de um grupo que há muito fora anulado, vivenciando toda a espécie de castrações, uma sociedade que se queria perfeita, mas fértil em mecanismos disparatados, que senão morria da doença, morreria da cura, uma sociedade que vivia de uma forma paradoxal, apregoando a defesa da liberdade mas tolhendo-a na sua mais pura forma de expressão, sentia que algo devia fazer, lentamente, muito lentamente, abriu os dedos e soltou o papagaio, este de imediato saltou livre no vento, sentiu dentro da si a alegria do acto, viu-o rodopiar várias vezes, ganhou altura e alegre afastou-se, até se perder na linha do horizonte, tomara uma decisão, não voltaria atrás, sentou-se ao volante do seu carro, não como o homem, agora era aquele papagaio de papel que iria viver na liberdade de ser livre, sorriu e acelerou na direcção da linha do horizonte até nela se fundir.


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